NARRATIVA DE MÃE MIRA

 

“Desde menina eu brincava com estas coisas, vivia lá pelos mato dentro do mangue o dia todo e levava um monte de gente atrás de mim, para me ver fazer aquelas coisas. Eu tinha apenas dez anos. Era coisa de criança, mais muita gente vinha atrás de mim, eu fazia tudo nos mato e lá ficava. Já curei muita gente aqui nesta cidade…

Eu não entendia muito bem ainda estas coisas, disse que era Oxumarê e Oxossi que me pegava e um caboclo, depois passei a receber Oxum. Acho que era uma mistura. Vinha tudo: santo, misturado com egun, sei lá… Meu pai se chamava Pedro Francisco dos Santos e minha mãe Hermelina Rosa da Conceição. Tinha dia que a gente tirava vinte cestas de ostra.

Eu entrava no mangue sozinha, governando uma canoa. Um dia meu pai me levou para a Fonte da Prata, para fazer azeite, mas não me dei lá não… Eu fazia aquelas coisas toda, mas vivia doente, caindo. Estava assim no mangue e aquela coisa me pegava, jogava a cesta fora e dizia que eu não precisava disso. Eu ainda continuava doente, ia na casa de uma senhora chamada Dona Filinha. Oxum me pegava lá e dizia que era para me cuidar. Só dizia que eu tinha de procurar um moço.

Meu tio Romão me levou para Salvador, para São Caetano, número 425, para a casa de Manoel Menezes. Loyá era a dijina dele. Ele era de Yansã. Estava na época do carnaval e ele saia no cordão Mocidade e Folia. Ele falou: como vou ficar com esta menina? Me lembro como hoje, uma irmã dele de nome Bandanguame, ela era de Omolu, ficou comigo e meu tio Romão Querino Barbosa vendia pão de São Caetano até o Largo do Tanque para ajudar pagar a minha obrigação. Não me lembro, mas acho que tinha de 17 para 18 anos. No dia 14 de maio Oxum deu nome.”

Mam’etu Kasanji, 2002. Em entrevista à Vilson Caetano.

 

0 Comentários

INSCRIÇÃO EM CURSOS

Enviando
©2018 DESIGN DIALOGICO: UMA ESTRATÉGIA PARA A GESTÃO CRIATIVA DE TERRITÓRIO
ou

Fazer login com suas credenciais

ou    

Esqueceu sua senha?

ou

Create Account